O Brasil se prepara para ter as eleições gerais com o maior eleitorado da sua história: o país registra hoje perto de 159 milhões de votantes cadastrados. Em outubro, eles vão eleger presidente, governadores, deputados federais e estaduais e dois senadores por estado.
O número representa apenas um pequeno aumento em relação ao pleito de quatro anos atrás, quando havia 156 milhões de eleitores, indicando que o crescimento do eleitorado pode ter chegado ao seu limite. Mesmo assim, consolida a mobilização democrática em constante expansão desde o início da Nova República, nos anos 1980. Para comparação, na primeira eleição presidencial do período, em 1989, o Brasil tinha um eleitorado de pouco mais de 80 milhões — cerca de metade do atual.
Essa massa de pessoas carrega uma multiplicidade de certezas, demandas e aspirações. Decifrá-las será o papel das urnas em outubro. Até lá, o retrato estatístico do eleitorado brasileiro pode oferecer pistas sobre o que pensam sobre os rumos do país e sobre sua própria voz.
O retrato da maioria
Se considerarmos os perfis majoritariamente representados em cada uma das categorias estatísticas presentes no cadastro eleitoral em 2026, o eleitor brasileiro seria representado por uma mulher parda, na faixa etária de 35 a 44 anos e com o ensino médio completo. As mulheres permanecem como a maioria do eleitorado, compondo 52% (81,8 milhões) do total, enquanto os homens representam 48%. No quesito escolaridade, o grupo com ensino médio completo é o mais expressivo (27,04%), totalizando 42,1 milhões de pessoas. Em relação à cor e raça, os pardos são a maioria absoluta (53,57%), seguidos de brancos (33,34%) e pretos (11,39%).

Jovens e idosos
Um dado importante para o comportamento das urnas em 2026, como sempre, será o engajamento dos grupos para os quais o voto não é obrigatório: jovens com 16 e 17 anos e idosos com 70 anos ou mais. Juntos, esses contingentes somam 20,5 milhões de brasileiros.
- Engajamento jovem: O alistamento de adolescentes de 16 e 17 anos totaliza 2,1 milhões de eleitores em 2026. É uma faixa etária que apresenta volatilidade conforme o tipo de eleição que se avizinha, mas o número de jovens que se habilitaram para votar no pleito geral de 2022 foi praticamente equivalente.
- Envelhecimento: O número de eleitores com 70 anos ou mais, por sua vez, poderia esperar um crescimento mais acentuado, reforçando a tendência de envelhecimento da base eleitoral. Entre 2022 e hoje, o total de eleitores nessa faixa pouco avançou, indo de 14,9 milhões para pouco mais de 15 milhões.

O poder da inclusão
O engajamento do cidadão ganhou uma nova camada desde as últimas eleições gerais. Em 2023, a Justiça Eleitoral começou a compilar várias categorias de declaração de identidade no levantamento estatístico do eleitorado, como cor/raça e identidade de gênero. A identificação, opcional, foi disponibilizada para o cadastro eleitoral no ano anterior. A maioria das pessoas prefere não responder a essa categorização, mas o número dos que aderem cresce rapidamente, ajudando a consolidar a medida.

A Justiça Eleitoral também aceita o registro do eleitor com o nome social, que é a identificação escolhida por um cidadão transexual para atender à sua identidade de gênero — em oposição ao nome civil, que foi registrado no nascimento. Para se cadastrar com o nome social basta a autodeclaração: não é preciso apresentar outros documentos em que conste o mesmo nome. Uma vez inscrito no cadastro eleitoral com o nome social, o eleitor não terá o seu nome civil divulgado pela Justiça Eleitoral, exceto em caso de exigências legais ou de solicitação própria.
- Identidade de gênero: Em maio de 2023, quando a Justiça Eleitoral começou a divulgar essa informação, menos de 2% do eleitorado indicava sua identidade de gênero (cisgênero ou transgênero); hoje, são mais de 20%, ou quase 33 milhões de pessoas.
- Nome social: O número de pessoas que utilizam nome social no título alcançou 41.537 eleitores em 2024, nas eleições municipais. Nas eleições gerais de 2022, esse número era de 37.646 pessoas, evidenciando um crescimento constante na busca por reconhecimento.
- Pessoas com deficiência: O eleitorado que declara alguma deficiência atingiu o recorde de 1,45 milhão de pessoas. Este contingente é significativamente maior que o de ciclos anteriores, tendo duplicado nos últimos oito anos e crescido substancialmente desde o pleito de 2022.
- Inclusão indígena: No último pleito, foram distribuídos mais de 21 mil cartazes nos idiomas Nheengatu e Guarani para orientar as comunidades em suas línguas originárias. Para 2026, a Justiça Eleitoral já trabalha na ampliação dessas medidas para garantir a pluralidade e a representatividade nacional.

"Vácuo" ideológico e geografia do voto
Para além da demografia, o comportamento político revela um cenário de independência ideológica: cerca de 40% dos eleitores não se consideram de esquerda, direita ou centro. O apontamento vem do Instituto DataSenado, que, em 2024, mapeou a cabeça do eleitor na pesquisa Panorama Político.

Somados aos 11% que se declaram de centro, a maioria dos eleitores (51%) situa-se fora dos polos tradicionais, tendência que é ainda mais forte entre as mulheres (55%).
O que também emerge com força, segundo o coordenador do DataSenado, é outro fenômeno: o protagonismo das mulheres na defesa da democracia e uma juventude que, mesmo acompanhando menos o cotidiano legislativo, tem uma agenda de valores clara e progressista em temas como direitos civis e justiça social.
Para ele, isso é sinal de que a identidade política vem sendo moldada mais por causas do que por identificações partidárias clássicas. Essa conclusão também carrega um recorte geográfico. Por exemplo, regiões como o Sul e o Centro-Oeste priorizam debates sobre segurança pública e armamento, enquanto o Nordeste se destaca pela confiança institucional.
— A geografia política do país revela que o Brasil não possui uma consciência única, mas sim um mosaico de agendas que variam conforme o território e o estilo de vida. Essa segmentação, somada à análise por perfis de comportamento, permite entender que a ideologia declarada é apenas um descritor superficial. O que define o eleitor são suas afinidades reais com temas como direitos, economia e confiança nas instituições, elementos que permitem separar os grupos bem demarcados daqueles que ainda habitam a zona de incerteza política.
Eleições e Congresso: o caminho para um novo Código Eleitoral
Enquanto o eleitorado se transforma, o Congresso Nacional trabalha no projeto para o novo Código Eleitoral (PLP 112/2021), sob a relatoria do Senador Marcelo Castro (MDB-PI). O texto é ambicioso: com ele, o país vai unificar todas as suas normas eleitorais, hoje dispersas entre várias legislações.
Entre outras inovações, o novo Código pode incentivar a participação política das mulheres. O texto cria uma reserva de 20% das cadeiras nas casas legislativas para mulheres durante 20 anos. Atualmente, há uma cota para candidaturas femininas, mas nenhuma garantia de vagas. A ideia é reduzir o descompasso atual entre as candidaturas: apesar da maioria feminina e parda no eleitorado, as candidaturas ainda são predominantemente de homens (66%) e brancos (46,8%).
A iniciativa, porém, tem como contraponto a suspensão da punição para partidos que não cumpram a cota de candidaturas femininas, o que efetivamente leva ao fim dessa regra. A suspensão duraria ao longo dos 20 anos em que a reserva de vagas for aplicada. A Bancada Feminina do Senado argumenta que a perda da garantia de candidaturas não compensa, em termos de representatividade, a nova regra eleitoral das cadeiras garantidas para mulheres.
A modernização proposta pelo novo Código não se limita à representatividade: ela também busca blindar o processo eleitoral contra os riscos impostos pelas novas tecnologias. Segundo o relator, o uso da inteligência artificial nas campanhas passa a ter regras claras.

Para o senador, essa regulação não representa uma ameaça à liberdade de expressão — pelo contrário, ela visa justamente distinguir o debate político legítimo do uso fraudulento da tecnologia:
— A liberdade de expressão é um dos pilares da democracia e permanece plenamente preservada. O Código não pune opiniões, críticas ou posicionamentos políticos. O que ele combate é a fraude. Quando alguém utiliza inteligência artificial para criar uma falsa declaração de um candidato, manipular imagens ou induzir deliberadamente o eleitor ao erro, deixa de exercer a liberdade de expressão e passa a praticar um abuso que compromete a legitimidade da eleição. Nosso cuidado foi construir regras que garantam a transparência no uso da IA e responsabilizem quem age de má-fé.
Entre outras inovações, o projeto do novo Código Eleitoral também trata de:
- Aumentar a transparência da prestação de contas partidárias
- Instituir o voto impresso
- Instaurar uma quarentena para agentes públicos se candidatarem
O projeto veio da Câmara dos Deputados e já passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com parecer favorável. Agora, ele precisa da aprovação do Plenário do Senado. Como houve mudanças promovidas pelos senadores, ele precisará voltar para a confirmação dessas mudanças pelos deputados.
Mesmo se for aprovado antes de outubro, o novo Código não terá validade para as eleições deste ano, devido ao princípio da anualidade eleitoral: novas leis que alteram regras de eleições não se aplicam aos pleitos realizados dentro do primeiro ano da sua vigência.
Fonte: Agência Senado
Fonte/Créditos: Agência Senado
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