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Mais um Agosto Lilás

Ano após ano a campanha nacional pelo fim da violência contra a mulher poderá ser esvaziada

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O mês de agosto de 2026 marcar os 20 anos da sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), assinada em 7 de agosto de 2006. Daí a referência da campanha nacional do “Agosto Lilás”, que busca promover uma conscientização social pelo fim da violência contra a mulher – um fenômeno social complexo. 

Mesmo sendo um movimento social necessário, com uma grande força simbólica e política, é fundamental ir além da simbologia para estimular e manter ativos a sociedade e o Estado numa luta diária contra a misoginia, as violências, o machismo, o patriarcado e a dicotomia superior/inferior.

Do contrário, ano após ano a campanha nacional pelo fim da violência contra a mulher poderá ser esvaziada e se tornar apenas mais um agosto lilás, para a decepção das vítimas (sobreviventes) e das famílias enlutadas. Porém, para se evitar a solução de continuidade, essa campanha deve ser feita diariamente –como é a violência contra a mulher – em todos os espaços da sociedade.

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Ou seja, todos os dias são dias de luta para o fim da violência contra a mulher, não só no mês de agosto nem só no período eleitoral. É um problema de todos, onde a sociedade e o Estado têm o deve legal e moral de se unirem, para enfrentá-lo com leis, atos e ações que desencorajem os agressores.

Pois, somente a eficácia da lei não inibe os agressores e os feminicidas, quando a própria sociedade é omissa e condescendente, diariamente, com todo tipo de violência contra a mulher. Assim, é imprescindível agir para desnaturalizar a submissão da mulher à violência de gênero do imaginário social.

No entanto, sem querer impor uma opressão reversa entre os gêneros no meio social. Muitas vezes, isso se faz através de palestras monótonas com palestrantes clichês que, longe de promoverem uma educação de gênero baseada em princípios e valores, geram um revanchismo juvenil entre meninos e meninas, e um desdém entre os homens.

A educação de gênero é urgente e necessária, como um processo educativo permanente que busca promover a igualdade de direitos, o respeito à diversidade e o fim dos preconceitos ligados aos papéis sociais de homens e mulheres. Assim, ela visa desconstruir as expectativas fixas para cada gênero nas relações sociais, a naturalização, a licenciosidade, os estereótipos e a violência contra a mulher.

Nesse sentido, deve-se ir além da força simbólica e política do “Agosto Lilás” para impregnar nas relações interpessoais diárias a educação de gênero e desmontar os modos de pensar torpes e atrofiados pela ignorância sobre as relações de gênero e por um ideal de Deus machista, patriarcal e misógino. 

Assim, quando a sociedade e o Estado assumirem que todos os dias são dias de luta pelo fim da violência contra a mulher, estar-se-á semeando uma simbiose de valores positivos como base de uma nova consciência sobre o papel da mulher na sociedade e a equidade de gênero, com interações sociais justas e saudáveis entre homens e mulheres, desde a infância em casa e na rua.

Para tanto, deve-se avançar no enfrentamento de outras questões que estão nas raízes da violência contra a mulher, como a certeza da impunidade e a falta de engajamento da sociedade. Porém, sem estimular quaisquer tipos de revanchismos e/ou crenças limitantes, que venham a inibir ou paralisar a revolução interativa entre os gêneros.

Portanto, a campanha do “Agosto Lilás”, a política de medidas protetivas, as delegacias especializadas e a lei do feminicídio são ações estratégicas, mas, sem a participação efetiva da sociedade, terão impactos relativos nas causas e nas dinâmicas do ciclo de violência contra as mulheres. Pois, o problema é de todos.

Comentários:

Arnaldo Eugênio

Publicado por:

Arnaldo Eugênio

Doutor em Antropologia

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