
A Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) realizou, na manhã desta quinta-feira (27), uma roda de conversa no Plenarinho Deputado Prado Júnior, dentro das ações do Agosto Lilás, Campanha de Conscientização e Enfrentamento à Violência Contra a Mulher. O encontro, promovido pelo Setor Médico da Alepi, reuniu delegadas, advogadas, profissionais de saúde e servidores da Casa para discutir formas de prevenção, acolhimento e acesso à rede de proteção.
Para a coordenadora de ações de saúde do Setor Médico da Alepi, Sandra Rodrigues, um dos principais objetivos da atividade foi reforçar às servidoras que passam por situações de violência que elas não precisam enfrentar o problema sozinhas. “O intuito é mostrar para as nossas servidoras que têm algum tipo de agressão que elas não devem ficar caladas, porque, à medida que vão se calando, aquilo vai se agravando”, afirmou.
Sandra explicou ainda que o núcleo de saúde da Assembleia mantém atendimento durante todo o ano, com ações voltadas à saúde mental e à saúde da mulher. Entre as iniciativas discutidas está a criação de uma “sala lilás”, espaço pensado para oferecer atendimento e escuta às mulheres.
A psicóloga do programa Bem-Estar Alepi, Fátima Araújo, falou sobre algumas das dificuldades enfrentadas por mulheres que chegam ao atendimento depois de viver situações de violência. Segundo ela, ansiedade e culpa aparecem com frequência nesses casos. “Na maioria das vezes a mulher se sente culpada, ela acha que o problema é dela”, explicou.
Ilza Cardoso, do Setor Médico da Alepi, também destacou que o primeiro contato pode fazer diferença no caminho percorrido pela vítima. Para ela, ouvir sem julgamentos é fundamental para que a mulher consiga compreender o que está vivendo e, quando necessário, seja encaminhada para o atendimento especializado.
Orientação jurídica e proteção
Durante a roda de conversa, a presidente da Comissão de Apoio à Vítima de Violência da OAB/PI, Dra. Ravena Mendes da Silva, apresentou algumas das iniciativas desenvolvidas pela comissão, como o CAV Comenta, o CAV Acompanha e o CAV em Movimento.
A advogada explicou que a comissão oferece orientação sobre medidas protetivas, representação criminal e questões relacionadas à guarda dos filhos. Em situações de extrema vulnerabilidade, também são oferecidos serviços de forma pro bono, ou seja, atuação em favor de organizações com fins sociais e sem fins lucrativos. “Quando a gente observa que a mulher está numa situação de extrema vulnerabilidade, nós oferecemos serviços quase como se fosse uma Defensoria Pública”, afirmou Ravena. Ela acrescentou que o trabalho envolve ainda o acompanhamento e a fiscalização dos casos.
A delegada Cassandra Moraes, que atua no enfrentamento à violência contra a mulher no Piauí, chamou atenção para a importância de fortalecer o apoio às vítimas e ampliar o acesso à denúncia, inclusive por canais que preservem o anonimato. Segundo ela, fatores como dependência econômica e medo ainda fazem com que muitas mulheres deixem de procurar ajuda.
A advogada criminalista Erinalda Araújo, que tem décadas de atuação na Polícia Civil, abordou outra situação que merece atenção: os casos em que mulheres procuram a Delegacia da Mulher para pedir a retirada de medidas protetivas. “Ao momento que elas retiram essas medidas, elas ficam vulneráveis. Nós pedimos à sociedade que reconheça realmente o valor das medidas protetivas”, declarou.
Experiências culturais que incentivam outras mulheres
A professora de zumba Clara Melo, idealizadora da Marcha das Mulheres, contou como experiências presenciadas em sala de aula acabaram dando origem ao projeto, criado com a proposta de incentivar o empoderamento feminino e a denúncia de situações de violência. “Quando comecei, eu não sabia como orientar cada aluna minha. Então decidi fazer uma marcha das mulheres”, relatou.
A servidora de Serviços Gerais da Alepi, Maria de Jesus Amorim, também falou durante o encontro. Ela compartilhou uma experiência pessoal de violência física e psicológica vivida em um relacionamento anterior e destacou o processo de reconstrução após conseguir romper com aquela situação. “Foi muito difícil, mas eu consegui me libertar”, afirmou.
A roda de conversa reforçou a importância de manter o debate sobre violência contra a mulher ao longo de todo o ano. Ao mesmo tempo, iniciativas como o Projeto de Lei Ordinária nº 128/2024, mostram que o enfrentamento à violência também passa pela construção de políticas públicas capazes de cuidar das pessoas que permanecem depois de uma situação extrema, especialmente crianças e adolescentes que perdem suas mães para o feminicídio.
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