A Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) realizou uma audiência pública nesta segunda-feira (1º) para discutir a atualização do Plano de Cargos e Salários dos professores da rede estadual de ensino e a realização de concurso público para provimento de vagas.
Na ocasião, o proponente, deputado Gustavo Neiva (PP), ouviu representantes do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica Pública do Piauí (Sinte-PI), das Secretarias de Estado da Educação (Seduc) e de Administração (Sead), além de contar com a participação de promotores de Justiça do Ministério Público do Piauí (MPPI).
O parlamentar enfatizou a necessidade de haver um consenso entre as reivindicações da categoria e uma contraproposta do Governo do Estado, além de alertar sobre o prazo para inserção na Lei Orçamentária Anual, que deve ser votada até o dia 17 de dezembro.
“Entendemos que se faz educação de qualidade valorizando seus profissionais, que estão dando seu suor e fazendo com que possamos ter qualidade na educação. Esperamos sensibilidade do Governo do Estado, o que ele paga hoje está distante da maioria das prefeituras municipais. Não há por que haver essa disparidade tão grande”, criticou Neiva.
Além disso, ele demonstrou preocupação sobre o número de profissionais da educação não efetivos e explicou que o montante acabar prejudicando o Regime Próprio de Previdência do Estado, uma vez que eles contribuem para o INSS.
“Cerca de 30 mil, entre professores e servidores administrativos, estão com contratos precários. Já existe indicação do Tribunal de Contas para concurso público”, defendeu.
Esse posicionamento foi corroborado pela presidente do Sinte-PI, Paulina Almeida. A professora criticou a gestão estadual e alegou que as negociações não estão caminhando como gostaria, uma vez que a contraproposta governamental ainda não foi apresentada.
“Nosso plano é de 2006, vigente desde 2007. Desde então, não houve nenhuma modificação. O Plano de Cargos e Salários deve ser uma política permanente, assim como o concurso público. Hoje são mais de 25 mil temporários, que evidentemente estão ocupando uma vaga. Então por que não ter concurso público? Cobramos praticidade. O próximo concurso terá 2 mil vagas de imediato e mais 2 mil em cadastro reserva”, questionou a sindicalista.
A superintendente de Gestão Interna e Educação de Jovens e Adultos da Seduc, Natalli Oliveira, esteve presente representando o secretário de Educação, Washinton Bandeira. Na ocasião, ela falou sobre a atuação da atual gestão, como a implantação do novo piso salarial e o reajuste geral de 6,27% concedidos em 2025, a implementação da gratificação para gestores e coordenadores que atuam em escolas de tempo integral e a previsão de ampliação para os demais profissionais.
"Em maio, uma comissão paritária foi instaurada e tem se reunido periodicamente para discutir o plano de carreiras. O Sinte já apresentou proposta e a Seduc está avaliando a viabilidade por meio de equipes técnicas, orçamentárias e financeiras da contraproposta. Até 16 de dezembro, ela será apresentada, observando o orçamento e o período de aprovação orçamentária na Alepi. O secretário se compromete a implementar ainda na sua gestão o novo Plano de Cargos e Salários”, assegurou Natalli Oliveira.
Para a superintendente de Gestão da Sead-PI, Ana Caroline Cunha de Sá, é necessário construir soluções possíveis e a Secretaria avalia impactos financeiros também sobre os inativos, uma vez que estes também impactam a PiauiPrev. Ela também ressaltou que o Governo respeita seus professores e reafirma a disposição de trabalhar para que a educação continue sento prioridade.
Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Piauí faz várias denúncias
O Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Piauí (Sinte) apresentou uma série de denúncias sobre o quadro de pessoal da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) que acredita serem o motivo para faltar dinheiro para a valorização dos professores efetivos.
Segundo o advogado do Sinte, Giovani Brito, apuração do TCE (Tribunal de Contas do Estado), feita em 2022, apontava que existiam cerca de 10 mil servidores temporários na Seduc. Esse número teria subido para 25 mil em 2024, ano de eleições estaduais. Ele denuncia que há descumprimento de legislação que obriga o órgão a ter mais efetivos do que temporários.
A esse problema, Brito acrescenta a grande quantidade de terceirizados e o que chamou de “CPF’s”, pessoas que recebem dinheiro sem estar na folha de pagamentos. O advogado do Sinte afirmou que, diariamente, diretores e professores relatam a chegada de novos funcionários administrativos às escolas que não sabem nem qual função devem exercer. Ele propôs ao deputado Gustavo Neiva que faça uma audiência pública focada nisso e acredita que, com a regularização da situação, vai sobrar dinheiro para valorizar os professores efetivos.
Professores descrevem falta de valorização
Os professores presentes à audiência pública puderam enumerar diversos exemplos da falta de valorização por qual passa a categoria. O vice-presidente do Sinte, Renato Bezerra, afirmou que o Piauí não tem escolas de tempo integral, mas sim escolas de tempo estendido, já que faltam estrutura e recursos financeiros para que o modelo se concretize.
Brito comparou o salário dos professores estaduais piauienses com o do Ceará e caracterizou como vergonhosos os vencimentos do Piauí. No estado vizinho, o salário de entrada é maior do que o salário de um profissional com doutorado na educação piauiense. O professor Sílvio Freitas lembrou da ausência de servidores administrativos concursados, destacando que o último certame foi realizado há 20 anos. Ele ainda criticou a ausência de secretários e deputados.
“Faltou coragem do secretário de Educação e do secretário de Administração para enfrentar a categoria. [...] A gente estava precisando aqui da presença dos secretários e também dos deputados estaduais dessa Casa, que se acovardaram com os representantes da educação desse estado”, repreendeu Sílvio Freitas.
De Picos, o professor João Antônio criticou o que considera um mau uso dos recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) por parte do Governo do Estado. “O que está acontecendo é que o Rafael [Fonteles] tira o nosso salário do Fundeb, que é nosso dinheiro, e dá para os prefeitos botarem funcionários. Por isso que sobra dinheiro para os prefeitos brincarem e tira de nós”, desaprovou.
Ministério Público do Estado e Alepi vão fiscalizar irregularidades
A promotora Fabrícia Barbosa de Oliveira, coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Educação do Ministério Público do Estado, disse que a instituição se remodelou para acompanhar melhor a Educação estadual. Ela coordena uma estrutura nova que vai fazer diagnósticos da área e dar diretrizes para todos os promotores do Piauí acompanharem melhor o tema.
Ela relatou que as principais denúncias recebidas são de falta de estrutura e de valorização dos profissionais e que, em uma primeira visita feita pelo Centro em uma escola estadual de tempo integral em Teresina, já foi possível ver que a mesma não condiz com as necessidades da modalidade. A promotora informou que mantém diálogo com o TCE para que, em parceria, as instituições acompanhem melhor a aplicação dos recursos do Fundeb.
O deputado Gustavo Neiva acatou vários pontos apresentados pelos professores e se pronunciou sobre reunião que deve ser feita pela categoria com o Governo do Estado no dia 16 deste mês para tratar do Plano de Cargos e Salários. “Se o Governo enviar esse plano no recesso, esta Casa não se furtará em votar. Que notícia boa seria se o ano letivo já começasse com esse plano”, defendeu o parlamentar diante do receio dos profissionais de que o diálogo aconteça apenas um dia antes da votação da Lei Orçamentária Anual de 2026 na Alepi. Ele lembrou que a Casa já se reuniu no recesso para votar a aprovação de empréstimo, então pode se reunir também para votar o plano que valoriza professores.
Fonte/Créditos: ALEPI
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