André Pessoa - Reportagem Especial
Pronto, acabou o drama de reclamar e sofrer as agruras da falta d’água no semiárido piauiense. Agora, nenhum candidato no Piauí precisa mais dormir e “sofrer” em São Raimundo Nonato (a 525 km de Teresina), cidade mais conhecida pela Serra da Capivara e que, ainda hoje, vive o drama da escassez hídrica, inclusive para o consumo humano.
O aeroporto regional do município, construído depois de anos, denúncias e muita luta da arqueóloga Niéde Guidon (1933-2025), virou o “point” dos políticos piauienses. Uma espécie de ponte aérea entre Teresina e São Raimundo Nonato.
Sem voos comerciais, o chamado Aeroporto Serra da Capivara virou o hub (centro de conexões, na tradução livre) preferido dos políticos do Piauí.
Antes, fazer campanha política em São Raimundo Nonato e microrregião era tratado como um suplício para eles, que precisavam pernoitar na cidade e sentir, literalmente na pele e na boca, a falta d’água a que seus moradores já estão acostumados há décadas.
Agora, basta pegar uma aeronave na capital, aterrissar em São Raimundo Nonato, fazer as promessas de sempre e — o melhor — voltar para o conforto de suas mansões e coberturas em Teresina no mesmo dia, inclusive tarde da noite, quando geralmente terminam os comícios.

Com balizamento noturno e funcionando 24 horas por dia, 365 dias por ano, o aeroporto virou o espaço queridinho dos políticos. Se você quiser conhecer os modelos mais modernos da aviação executiva, é só ir até o terminal neste período eleitoral.
Jatinhos e aeronaves modernas e potentes que servem a políticos ou candidatos como o governador Rafael Fonteles, Marcelo Castro, Júlio César, Ciro Nogueira e muitos outros podem ser vistos dia e noite estacionados no pátio.
A falta d’água que tanto massacra a comunidade local é apenas um mero detalhe, transformada em gratidão por eleitores que, apesar de tudo, campanha após campanha, insisten em votar nos mesmos nomes.
Construído para alavancar o desenvolvimento da região por meio do turismo, o aeroporto não dispõe de voos comerciais regulares e passa a maior parte do ano entregue aos pardais que infestam o local. Mas tudo muda durante a campanha eleitoral. A cidade até já se acostumou com o ronco dos motores sobrevoando as suas ruas.
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