O governo reacionário de Javier Milei enfrenta dificuldades para fazer avançar uma nova etapa de seu programa de entrega nacional. Em julho, o oficialismo não conseguiu reunir apoio suficiente para aprovar o projeto que elimina limites à concentração de terras por monopólios imperialistas, fundos de investimento e grandes proprietários estrangeiros, inclusive em áreas com reservas de água e zonas de fronteira. O impasse ocorre enquanto Milei aprofunda os ataques aos direitos trabalhistas, à saúde e à educação, amplia a repressão e submete a economia argentina aos ditames do imperialismo, principalmente ianque.
A dificuldade para impor essa política reacionária coincide com a persistente rejeição popular ao governo. A pesquisa mais recente da AtlasIntel para a Bloomberg, divulgada em julho, apontou que 58,2% dos argentinos desaprovam Milei, contra 39,7% que o aprovam. Embora a desaprovação tenha recuado em relação ao pico de 63% alcançado meses antes, o governo segue rejeitado pela maioria, enquanto 62% classificam como ruim sua situação econômica e 73% avaliam negativamente o mercado de trabalho.
“A crise produzirá um processo de luta; não tenho a menor dúvida”, afirmou o historiador João Cláudio Platenik Pitillo, idealizador do canal Guerra Patriótica, durante o A Propósito #369, transmitido em 16 de julho pelo canal de AND no YouTube. Pitillo participou do debate ao lado de Wender – representante da Liga Anti-imperialista Internacional (LAI) – Seção Brasil – e do diretor-geral de AND, Victor Bellizia. Os participantes analisaram como as “reformas” de Milei, a submissão ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao imperialismo ianque e o fortalecimento dos aparatos de repressão aprofundam as contradições sociais e impulsionam novas lutas.
O representante da LAI afirmou que “a situação material e econômica para um processo revolucionário na Argentina – isto é, a situação objetiva – está dada”. Bellizia destacou que o peso do revisionismo e a influência do peronismo sobre a classe operária ainda atrasam o desenvolvimento do fator subjetivo, embora a própria crise crie condições para seu crescimento.

Governo corta saúde e educação
O chamado “equilíbrio fiscal” de Milei foi construído mediante ataques diretos a serviços essenciais. Entre 2023 e 2026, o orçamento real do Plano Remediar – responsável por distribuir medicamentos nos centros de atenção primária – caiu 72%, enquanto a quantidade de tratamentos entregues despencou. Hospitais universitários também denunciaram falta de recursos para manter atendimentos, pesquisa e formação de trabalhadores da saúde.
Nas universidades, o congelamento de repasses e a corrosão dos salários desencadearam greves e grandes marchas de estudantes, professores e demais trabalhadores. A mobilização obrigou o governo a conceder uma recomposição emergencial, sem atender integralmente às reivindicações nem reverter o desmonte promovido desde o início do mandato.
FMI e EUA sustentam programa entreguista
Em maio de 2026, o FMI liberou mais US$ 1 bilhão do acordo de aproximadamente US$ 20 bilhões firmado com a Argentina, mesmo depois de o governo descumprir a meta de acumulação de reservas. O financiamento foi mantido em troca do aprofundamento do ajuste fiscal, da abertura comercial e das “reformas” trabalhistas exigidas pelo capital financeiro.
A Casa Branca também socorreu Milei com uma linha de swap de até US$ 20 bilhões e um acordo comercial que amplia o acesso de monopólios ianques a mercados, energia, minerais estratégicos, infraestrutura e tecnologia. O programa apresentado como libertação da “casta” aprofundou, na prática, a submissão da Argentina ao imperialismo ianque.
Pitillo classificou Milei como “entreguista, vendilhão e extremamente reacionário”. “É um governo de aventureiros, porque Milei não entende de administração pública nem de economia. A Argentina está se transformando num poço sem fundo”, afirmou.
Quem é João Claudio Platenik Pitillo
Professor de História licenciado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) 2012. Mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) 2016. Doutor em História Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) 2021. Pós-doutarando em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor de História dos seguimentos Fundamental e Médio da rede privada. Desenvolve pesquisas sobre a Segunda Guerra Mundial, com ênfase na participação soviética e brasileira no referido conflito É pesquisador do NUCLEAS (Núcleo de Estudos das Américas da UERJ), onde trabalha com os processos revolucionários da América Latina no século XX, tendo o conceito de Nacionalismo Revolucionário como tema. Com base nos pressupostos da História do Tempo Presente estuda os conflitos bélicos dos séculos XX e XXI, com ênfase na Guerra Híbrida. Foi Conselheiro Universitário no CSEPE/UERJ em 2009, membro do Conselho de Consumidores da Light em 2012 e membro do Conselho de Cultura da Cidade do Rio de Janeiro em 2013.
Fonte/Créditos: Paulo Pincel
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